Uma das questões mais interessantes sugeridas pela sociologia da arte pode ser formulada do seguinte modo: quem pode sonhar sonhos novos? A resposta parece emergir do universo paralelo que é Minas Gerais, à moda Beto Guedes, talvez: “recusar o poder”. O esoterismo mineiro, contudo, anda a par com o pragmatismo dos tropeiros: ora, e quem acalenta sonhos velhos? Muitos e inúmeros, mas para nós da terrinha é delicioso observar como editores de semanários, gestores de portais e afins aninham sonhos que só são seus, na medida em que reproduzem os cacuetes de Charles Foster Kane, no antológico Cidadão Kane, de Orson Wells. Bem lida, contudo, a fábula que perpassa o filme não trata do domínio da realidade, mas de sua instituição. Portanto, notícia e ficção, verdade e mentira, análise e estratégia, matéria e propaganda são, a rigor, uma única e mesma coisa, fundidas que estão por uma ânsia de poder total. Esse sonho, obviamente, só pode ser sonhado em uma época como a do capital monopólico, concentrado, em que as escalas são imensas e descomunais, desproporcionais, a rigor, ao pequenino do homem. Mais ainda: em um momento em que a produto dileto do capitalismo é a própria produção da realidade, a partir da estetização do real – razão pela qual a indústria do entretenimento e a mídia são as jóias da coroa, na empresa capitalista contemporânea. Como se combate em um era de poderes totais? Foucault, Deleuze, Walter Benjamin indicaram um caminho promissor: a pequena luta, a guerrilha, inclusive no campo simbólico e artístico. O cinema acrescentou a essa tese um personagem exemplar: Carlitos. Para vencer é preciso aceitar a condição insólita do marginal e do palhaço, opor-se ao imenso nessa pequenas escala, que é a do corpo humano. É provável que assim a vitória seja total. Em tempo: o personagem pândego de Chaplin, que aceita ser patético, excêntrico e extemporâneo, é um espelho que reflete não o seu próprio ridículo, mas a natureza patética de toda vitória que se baseia na desproporção. E não é sempre esse o caso quando intervém o capital como poder concentrado? Como máquina midiática?
Há muitas formas e muitos ângulos a partir dos quais se pode estudar o poder, suas estratégias e vilanias. Quatro meses, três semanas, dois dias optou por abordá-lo a partir de seus intestinos, ou seja, a invasão da vida privada em suas mais íntimas porções. O mercado negro e suas vendas de retalho, a pasta de dente, o sabonete, o cigarro preferido, um secador de cabelos a ser dividido por muitas, as trocas de favores, um hotel que requer, como critério para hospedagem, não apenas o pagamento da diária, mas simpatia, conformidade, adesão às regras - todas elas, as que se conhece, e também as que estão subentendidas. Através desses pequenos atos, repetidos catatonicamente até o infinito, a indiferença como sombra aterradora. Não há compromissos, vínculos, mas a auto-preservação como meta absoluta, a conveniência, a conformidade à norma, que se demonstra absurda, mas que se aceita como evento natural.
É por isso que a heroína se constrói como tal a partir do compromisso e comprometimento, que é estritamente afetivo, não racional. É por ser do terreno afetivo, contudo, que sua ação é política: ela se recusa a ser indiferente, a abandonar uma amiga patética à sua própria sorte. Segue-a, portanto, em seus descaminhos que, de mentira em mentira, omissão em omissão, expõe a ambas ao poder em sua máxima capacidade de invasão: a sujeição do corpo em sua corporalidade, a disjunção entre o ser e sua carnalidade – estar consciente de que o próprio corpo é uma arma apontada contra si. Essa é a promessa reiterada do poder totalitário: que o corpo seja o cadinho do homem; que seu aparelho sensorial, os elementos materiais de seu vínculo afetivo com o mundo sejam usados como plataforma para sujeitá-lo e emagá-lo. Não se trata, contudo, de uma liquefação física, ainda que ela possa acontecer. O poder totalitário quer esterilizar o desejo de autonomia, a ânsia de liberdade, a tez e a textura, a enervação, para construí-lo como mecanismo, dotado de estrutura material, mas estéril e vazio.
A falta de profundidade, o chapado da tela, o foco difuso, as cores embotadas, o verde desacordado, o pastel surrado, o marrom encardido, a neve em permanente decomposição, cinza e pastosa, o negro da mais negra noite, em que não se vê, em que todo caminho é um descaminho, pertencem à paisagem, apenas na medida em que ela é uma exteriorização do homem em seu longo exílio, em que seu corpo sobrevive à custa de sua humanidade.
Um homem estéril, que produz homens mortos: o aborto, tema central do filme, é também metafórico – o feto se fez em uma mulher: gravidez maquinal. Trata-se, contudo, de uma metáfora viva: a política não existe fora do corpo. É sobre o corpo que se exerce o poder em sua máxima intensidade. É, portanto, também sobre o corpo das duas jovens que recai todo o peso da tirania. A violência de que são vítimas, o mutismo e a resignação que se seguem, são apenas a materilização da regra, ainda que como alternativa à sua aplicação pelo aparelho coercitivo do Estado. Metáfora em máxima potência: seus corpos não lhes pertencem, são propriedade da maquinaria do poder, em sua mais difusa compleição. Se escapam à violência da prisão, é apaenas para cair na violência do estupro; se evitam a sanção pública, é para mergulhar no infortúnio privado. Relacionam-se com seus corpos como se eles fossem próteses, mas próteses de que não se podem ver livres - que são manipuladas, tocadas e trocadas, substituídas e recondicionadas. O poder total quer ser o centro ativo dessa disjunção, por que esse é o ninho da sujeição total.
Quanto a esse aspecto é preciso não perder o elemento propriamente feminino da questão apresentada pelo filme. Existe aqui algo de trans-histórico: o domínio do corpo da mulher, pelo homem. No que existe de particular, de questão de gênero, esse é igualmente um dos mais incandescentes elementos a envolver a discussão do poder em geral, na medida em que figura a materialidade, a carnalidade que o envolve. Em Último tango em Paris, Brando descreve de modo magistral a figura masculina, que se apresenta de modo cortes e protetor, apenas para se alojar no interior do corpo feminino, e dele se apossar. Trata-se da posse dos cheiros, do líquidos vaginais, do útero, da genitalha, dos seios. O poder exprime desse modo, segundo a forma historicamente condicionada do masculino, seus requerimentos abstratos. Exatamente por isso, como já o disse Marx, civilização e barbárie se medem segundo os padrões de relacionamento homem – mulher. Na libertação da mulher, liberta-se igualmente o homem.
A este filme aplica-se grande parte dos desenvolvimentos que foram feitos na oportunidade da crítica de Eastern Promises (Os senhores do crime). Seu título original, contudo, traz um elemento essencial de diferenciação. A questão, a bem da verdade, é posta por uma insinuação: e se imaginássemos as atividades da Máfia como regular business e seu modus operandi como business as usual. Novamente aqui, como de resto está presente também em No country for old men (Onde os fracos não têm vez) e, em menor grau, em Paranid Park, emerge a questão da relação entre o herói americano e o americano regular, comum, aquele que se denomina, nas produções hollywoodianas, looser.
Organização, estruturra administrativa, CEO (Chief Executive Officer), distribuição, fornecedores e consumidores, escalas, custo e preço, diferenciação do produto, market share, brand, territórios e regionalização, mercado internacional. Nenhum dos termos e das práticas que se pode ver usualmente em Business Week está ausente do cotidiano deste gênio do crime - mas igualmente da organização - que é o protagonista de American Gangster. Além do mais ele é, para todos os fins práticos, um self made man paradigmático: veio não apenas de baixo, subiu na vida a partir de uma minoria e de sua rotina de humilhação.
A questão, portanto, nas diferenciações evidentes entre o chefe mafioso e o executivo de Wall Street, reside em suas semelhanças essenciais: a atividade produtiva e mercantil como rotina de guerra, ou talvez mais propriamente de guerrilha; a competição e competitividade levadas às útlimas conseqüências; a indiferença quanto àquilo que se faz, uma vez que, ao final das contas, é apenas e tão somente de dinheiro – riqueza abstrata, sem forma – que se trata.
Evidentemente a burguesia não tinha agora outro jeito senão eleger Bonaparte. Quando os puritanos, no Concilio de Constança, queixavam-se da vida dissoluta a que se entregavam os papas e se afligiam sobre a necessidade de uma reforma moral, o cardeal Pierre d'Ailly bradou-lhes com veemência 'Quando só o próprio demônio pode ainda salvar a Igreja Católica, vos apelais para os anjos'. De maneira semelhante, depois do golpe de Estado, a burguesia francesa gritava: Só o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro pode salvar a sociedade burguesa! Só o roubo pode salvar a propriedade; o perjúrio, a religião; a bastardia, a família; a desordem, a ordem! (O 18 Brumário de Luis Bonaparte. Karl Marx. Publicado como Arquivo Eletrônico)
De um ponto de vista estritamente sociológico, o único interesse que este filme apresenta reside na confirmação, quase que literal, de uma tese que se vem enunciando por grande parte da produção cinematrográfica que se dedicou a seu tema: a Máfia é um fenômeno que envolve e pressupõe a tradição, assim como suas formas institucionalizadas – por exemplo a Igreja, compreendida em suas mais distintas profissões de fé.
Comecemos pela tradição em sua condição exotérica, conforme ela aparece vinculada à Igreja. Em The Godfather, com seus três distintos epsódios, os negócios e interesses da Máfia não apenas se interconectam com os da Igrejas, mas conduzem a uma situação extrema, em que se materializa uma sociedade entre as duas entidades, em torno de uma instituição financeira. Em American Gangster o protagonista é detido à saída da igreja, onde assistia ao culto na mais recatada devoção. Em Eastern Promises (Os senhores do Crime), há referências a índices e ícones religiosos (ortodoxos), espalhado pelos corpos dos mafiosos e suas vítimas.
Há alguns anos, por causa das transgressões morais, um padre era conduzido numa carreta pelas ruas de Nápoles. Lançando imprecações, pessoas o seguiam. Em certa esquina, faz o sinal-da-cruz, e todos os que estão atrás da carreta caem de joelhos. É dessa maneira incondicional que o catolicismo se empenha por se restabelecer nesta cidade, qualquer que seja a circunstância. Se um dia desaparecesse da face da terra, seu último reduto não seria Roma, mas Nápoles.
Não pode esse povo viver de acordo com sua imensa barbárie, crescida do coração da própria cidade grande, em lugar algum com mais segurança do que no seio da Igreja. Precisa do catolicismo, pois com ele se erige uma legenda, a data de calendário de um mártir, que ainda legaliza seus excessos. Aqui nasceu Santo Afonso di Liguori que tornou flexível a praxe da Igreja, perito em seguir o ofício dos malandros e prostitutas, a fim de controlá-lo no confessionário, cujo compêndio redigiu em três tomos, com penalidades eclesiásticas mais severas ou mais brandas. Apenas a Igreja, e não a polícia, pode se equiparar à autonomia da criminalidade, a Camorra. (BENJAMIN, 1995, p. 146)
Há na Máfia, contudo, em suas mais variadas origens e conformações, um componente da tradição que é esotérico, e que se refere a seus códigos internos de honra e, de maneira muito mais importante e significativa, às regras de respeito à autoridade e de sujeição. O exercício da autoridade se aproxima aqui, muitíssimo, daquele que se encontra nas hipóteses filogenéticas de Freud, acerca da origem da civilização. Compreender esta figura – o pai primevo - é fundamental, portanto, para entender as sociedades crimonosas, e, por meio do horror que perpetram de maneira absolutamente ilegal, as insitucionalização do próprio horror como política de Estado, nas sociedades totalitárias.
Para a apropriação historica do fenômeno mafioso, deve-se ter em mente que a Máfia depende sempre da inoperância relativa ou absoluta das agências estatais, de tal modo que as mediações que aquelas instâncias deixam de realizar, se fazem por intermédio da sociedade criminosa, e nos seus termos. Essa inoperância não deve ser tomada, contudo, na forma com que ela comumente se apresenta, ou seja, “falência” do Estado, “ausência de autoridade” ou disciplina - que deveriam ser impostas pelo aparelho repressivo. Pode haver um Estado forte e, ainda assim, se estabelecer um fenômeno de proliferação do crime organizado, nos moldes da Camorra, por exemplo.
Só se compreende essa aparente contradição se aceitarmos que, para a sociedade oficial, legal, existe uma porção da população que sequer merece o esforço de controle ativo, por meio do aparato repressivo do Estado. Ela é deixada a si mesma, numa situação que beira a anomia, porque seu regramento é oneroso demais e, para ser eficaz, dependeria ainda de outras medidas, que nada têm a ver com segurança pública, mas sim com educação, saúde, assistência social, etc.
A Máfia, a sociedade criminosa, é funcional para a ordem, ainda que represente um território da mais aboluta ilegalidade. Cuidam de “falanges e hostes” hostis, a um custo mais conveniente do que aqueles que emergem das projeções e previsões orçamentárias, especialmente quando se realizam apenas a curto prazo . A ameaça que representam, como se demonstra recorrentemente, e de modo pragmático, por outro lado, não vai muito além da pequena burguesia. São, ainda, de certo modo, bons para os negócios, pois nos limites tênues entre o lícito e o ilícito, há sempre boas oportunidades para big business e business men.
Essa solidariedade entre a mais fina flor da nata e a elite da “ralé” só se configura perfeitamente, contudo, nas sociedades contemporâneas. No mundo global, em que se precisa de imigrantes e se os recusa como indesejáveis, a Máfia surge como solução de primeira grandeza, e da mais urgente necessidade. Desse modo, a cada nacionalidade e etnia de indesejáveis, corresponde uma linha de frente, que não apenas mantém esses indesejáveis produtivos, mas os contém aquém das fronteiras do mundo do mundo dos eleitos, e na mais ardorosa devoção.
É por isso que a Máfia precisa da tradição e de todo o seu instrumental, especialmente as formas brutais e medievas de controle: ela super-explora indivíduos aos quais se nega toda cidadania e todos os benefícios da civilização, para apresentar-lhes como sucedâneo desse inferno, a submissão irrestrita a uma ordem secreta, esotérica e mágica, cuja porta de entrada está sempre franqueada. À miséria do mundo a que estão condenados corresponde um outro mundo, um infra-mundo, onde a insanidade de prosperar materialmente, por entre as condições de vida as mais abjetas e ignominiosas, é compensada e justificada por uma apropriação heterodoxa da tradição, que é reescrita com todos os elementos exteriores das religiões, seus ritos e signos, comportando, ainda, uma teleologia, uma escatologia, e assim por diante.
Esse mundo mágico só preserva esta condição na medida em que é igualmente insano, uma vez que reescreve a letra da lei civilizatória, para os propósitos estritos da barbárie. É preciso recordar, contudo, que essa mesma barbárie não nasce de si mesma: ela é o resto irracional, a sobra, o conto da carochinha, exteriorização e projeção de uma violência que reside no seio da civilização, e que se cristaliza em torno de uma instituição universal, cujo nome se declina nos mais diferentes idiomas – Máfia.
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Anexo I - Psicologia das massas: Freud e a hipótese filogenética
O estudo da psicologia das massas a partir de Freud deve considerar a existência de uma hipótese filogenética, que remete à aurora dos grupamentos humanos, onde se pode supor (mesmo que apenas de modo teórico) a presença de um pai primordial, que detinha o monopólio sobre as fêmeas de seu grupo, excluindo, portanto, do concurso sexual todos os demais.
(...) o pai primevo impedira os filhos de satisfazer seus impulsos diretamente sexuais; forçara-os à abstinência e, conseqüentemente, aos laços emocionais com ele e uns com os outros, que poderiam surgir daqueles de seus impulsos antes inibidos em seu objeto sexual. Ele os forçava, por assim dizer, à psicologia de grupo. Seu ciúme e intolerância sexual tornaram-se, em última análise, as causas da psicologia de grupo. (FREUD, p. 157)
Mas nesta relação estabelecida entre o pai primordial e o grupo é necessário destacar o fato de que, ele mesmo, tinha pouquíssimos vínculos libidinais, isto é, não amava ninguém, ou se o fazia, era na justa medida em que seus “filhos” atendiam suas necessidades, ao passo que contrariamente, todos o amavam ou temiam. Este pai, portanto, era “absolutamente narcisista, autoconfiante e independente”, e tinha uma natureza mítica. Diante de tal figura, todos os demais se vêm na contingência de assumir uma postura passivo-masoquista, posto que enfrentá-lo seria um procedimento bastante arriscado (Freud, p. 161). Entende-se, deste modo, que a figura do pai primevo é essencial à coesão do grupo (massa):
As características misteriosas e coercitivas das formações grupais, presentes nos fenômenos de sugestão que as acompanham, podem assim, com justiça, ser remontadas à sua origem na horda primeva. O líder do grupo é o temido pai primevo; o grupo ainda deseja ser governado pela força irrestrita e possui uma paixão extrema pela autoridade; na expressão de Le Bon, tem sede de obediência. O pai primevo é o ideal do grupo, que dirige o ego no lugar do ideal do ego. (...) (FREUD, p. 161)
É de extrema importância a caracterização que se fez do líder, por recurso à figura do pai primordial, no interior da horda, especialmente no que se refere ao delineamento de seu caráter agressivo, autoritário, no qual inexistem traços compassivos ou benevolentes. O entendimento de sua natureza é, de certa forma, uma porta para a compreensão da própria economia psíquica da massa, com quem ele interage, sendo essencial à intelecção do fenômeno fascista. Deriva-se com facilidade da hipótese filogenética o fato de que as massas demandam a autoridade do líder; desejam ser governadas de modo despótico e por recurso à força, do mesmo modo que se submetem à sua intolerância, indiferença e violência constitutivas.
Hitler shunned the traditional role of the loving father and replaced it entirely by the negative one of threatening authority. The concept of love was relegated to the abstract notion of Germany and seldom mentioned without the epithet of “fanatical” through which even this love obtained a ring of hostility and aggressiveness against those not encompassed by it. (…) (ADORNO, p. 123)
O comportamento passivo-masoquista perante a figura do líder é algo que a propaganda nazista procura ativamente estabelecer, razão que justifica sua onipresença imagética, figurativa, etc. É de todo claro que não importam, verdadeiramente, as qualidades do líder - se é que elas existem -; o relevante parece ser estabelecer o vínculo libidinal entre ele e a massa, o que se faz pelo recurso à idolatria.
This actually defines the nature and content of fascist propaganda. It is psychological because of its irrational authoritarian aims which cannot be attained by means of rational convictions but only through the skillful awakening of a “portion of the subject’s archaic inheritance”. Fascist agitation is centered in the idea of the leader, no matter whether he actually leads or is only a mandatary of group interests, because only the psychological image of the leader is apt to reanimate the idea of all-powerful and threatening primal father. This is the ultimate root of the otherwise enigmatic personalization of fascist propaganda, its incessant plugging of names and supposedly great men, instead of discussing objective causes. The formation of the imagery of an omnipotent and unbridled father figure, by far transcending the individual father and therewith apt to enlarge it into a “group ego”, is the only way to promulgate the “passive-masochistic” attitude to whom one’s will has to be surrendered, an attitude required of the fascist follower the more his political behavior becomes irreconcilable with his rational interests as a private person as well as those of the group or class to which he actually belongs. The follower’s reawakened irrationality is, therefore, quite rational from the leader’s view point: it necessarily has to be “a conviction which is not based upon perception and reasoning but upon an erotic tie. (ADORNO, p. 124)
Como já vimos mais acima o laço libidinal, que vincula a massa ao líder, contém um forte elemento narcísico, uma vez que o líder, colocado no lugar do ideal do ego, de algum modo, atende aos anseios do ego, que não poderiam ser de outro modo atingidos pelo ego empírico do membro da massa fascista. Há, portanto, um ganho do ponto de vista da economia psíquica do aderente à massa fascista.
It is precisely this idealization of himself the fascist leader tries to promote in his followers, and which is helped by the Führer ideology (...) by making the leader his ideal he loves himself, as it were, but gets rid of the stains of frustration and discontent which mar his picture of his own empirical self. This pattern of identification through idealization, the caricature of true, conscious solidarity, is, however, a collective one. It is effective in vast number of people with similar characterological dispositions and libidinal leanings. The fascist community of people corresponds exactly to Freud’s definition of a group as being “a number of individuals who have substituted one and the same object for their ego ideal and have consequently identified themselves with one another in their ego”. The leader image, in turn, borrows as it were its primal father-like omnipotence from collective strength. (ADORNO, p. 126)
Anexo II - O 18 Brumário de Luis Bonaparte. Karl Marx. (Publicado como Arquivo Eletrônico)
Nessas excursões, que o grande Moniteur oficial e os pequenos Moniteurs privados de Bonaparte tinham naturalmente que celebrar como triunfais, o presidente era constantemente acompanhado por elementos filiados à Sociedade de 10 de Dezembro. Essa sociedade originou-se em 1849. A pretexto de fundar uma sociedade beneficente o lúmpen-proletariado de Paris fora organizado em facções secretas, dirigidas por agentes bonapartistas e sob a chefia geral de um general bonapartista. Lado a lado com roués decadentes, de fortuna duvidosa e de origem duvidosa, lado a lado com arruinados e aventureiros rebentos da burguesia, havia vagabundos, soldados desligados do exército, presidiários libertos, forçados foragidos das galés, chantagistas, saltimbancos, lazzarani, punguistas, trapaceiros, jogadores, maquereaus(19), donos de bordéis, carregadores, líterati, tocadores de realejo, trapeiros, amoladores de facas, soldadores, mendigos - em suma, toda essa massa indefinida e desintegrada, atirada de ceca em meca, que os franceses chamam la bohêmne; com esses elementos afins Bonaparte formou o núcleo da Sociedade de 10 de Dezembro. "Sociedade beneficente" no sentido de que todos os seus membros, como Bonaparte, sentiam necessidade de se beneficiar às expensas da nação laboriosa; esse Bonaparte, que se erige em chefe do lúmpen-proletariado, que só aqui reencontra, em massa, os interesses que ele pessoalmente persegue, que reconhece nessa escória, nesse refugo, nesse rebotalho de todas as classes a única classe em que pode apoiar-se incondicionalmente, é o verdadeiro Bonaparte, o Bonaparte sans phrase. Velho e astuto roué, concebe a vida histórica das nações e os grandes feitos do Estado como comédia em seu sentido mais vulgar, como uma mascarada onde as fantasias, frases e gestos servem apenas para disfarçar a mais tacanha vilania. Assim foi na sua expedição a Estrasburgo, em que um corvo suíço amestrado desempenhou o papel da águia napoleônica. Para a sua irrupção em Boulogne veste alguns lacaios londrinos em uniformes franceses; eles representam o exército. Na sua Sociedade de 10 de Dezembro reúne dez mil indivíduos desclassificados, que deverão desempenhar o papel do povo como Nick Bottom representara o papel do leão. Em um momento em que a própria burguesia representava a mais completa comédia, mas com a maior seriedade do mundo, sem infringir qualquer das condições pedantes da etiqueta dramática francesa, e estava ela própria meio iludida e meio convencida da solenidade de sua própria maneira de governar, o aventureiro que considerava a comédia como simples comédia tinha forçosamente que vencer. Só depois de eliminar seu solene adversário, só quando ele próprio assume a sério o seu papel imperial, e sob a máscara napoleônica imagina ser o verdadeiro Napoleão, só aí ele se torna vítima de sua própria concepção do mundo, o bufão sério que não mais toma a história universal por uma comédia e sim a sua própria comédia pela história universal. O que os ateliers nacionais eram para os operários socialistas, o que os Gardes mobiles eram para os republicanos burgueses, a Sociedade de 10 de Dezembro, a força de luta do partido característico de Bonaparte, era para ele. Em suas viagens, os destacamentos dessa sociedade, superlotando as estradas de ferro, tinham que improvisar público, encenar entusiasmo popular, urrar vive l'Empereur, insultar e espancar republicanos; tudo, é claro, sob a proteção da polícia. Nas viagens de regresso a Paris tinham que formar a guarda avançada, impedir ou dispersar manifestações contrárias. A Sociedade de 10 de Dezembro pertencia-lhe, era obra sua, idéia inteiramente sua. Tudo mais de que se a própria é posto em suas mãos pela força das circunstâncias; tudo o mais que faz é obra das circunstâncias ou simples cópia dos feitos de outros. Mas o Bonaparte que se apresenta em público, perante os cidadãos, com frases oficiais sobre a ordem, a religião, a família e a propriedade, trazendo atrás de si a sociedade secreta dos Schufterles e Spiegelberges, a sociedade da desordem, da prostituição e do roubo - esse é o verdadeiro Bonaparte, o Bonaparte autor original, e a história da Sociedade de 10 de Dezembro é a sua própria história. Haviam ocorrido casos, porém, de um outro representante do povo pertencente ao partido da ordem cair sob os porretes dos decembristas. Mais ainda. Yon, o Comissário de Polícia destacado para a Assembléia Nacional e encarregado de velar por sua segurança, baseando-se no testemunho de um certo Alais denunciou à Comissão Permanente que uma facção decembrista resolvera assassinar o general Changarnier e Dupin, presidente da Assembléia Nacional, tendo já designado os indivíduos que deveriam perpetrar o feito. Compreende-se o pavor do Sr. Dupin. Parecia inevitável um inquérito parlamentar sobre a Sociedade de 10 de Dezembro, ou seja, a profanação do mundo secreto de Bonaparte. Pouco antes de se reunir a Assembléia Nacional, porém, este último previdentemente dissolveu a sua sociedade, mas claro que só no papel pois em um longo memorial apresentado em fins de 1851 o Chefe de Polícia, Carlier, tentava ainda em vão convencê-lo de dissolver realmente os decembristas.
A Sociedade de 10 de Dezembro deveria continuar como o exército particular de Bonaparte até que ele conseguisse transformar o exército regular em uma Sociedade de 10 de Dezembro. (...)
A linguagem respeitável, hipocritamente moderada, virtuosamente corriqueira da burguesia, revela seu significado mais profundo na boca do autocrata da Sociedade de 10 de Dezembro e no herói de piquenique de St. Maur e Satory.
As barras de ouro deram melhor resultado. Bonaparte & Cia. não se contentaram em embolsar uma parte do excedente dos 7 milhões sobre as barras que seriam distribuídas como prêmios; fabricaram bilhetes falsos; emitiram dez, 15 e mesmo 20 bilhetes com o mesmo número - operação financeira bem de acordo com o espírito da Sociedade de 10 de Dezembro!
Cromwell, quando dissolveu o Parlamento Amplo, entrou sozinho na sala de sessões, puxou o relógio a fim de que tudo acabasse no minuto exato que havia fixado e expulsou os membros do Parlamento um por um com insultos hilariantes e humorísticos. Napoleão, de estatura menor que seu modelo, apresentou-se pelo menos perante o Poder Legislativo no 18 Brumário e embora com voz embargada, leu para a Assembléia sua sentença de morte. O segundo Bonaparte, que, ademais, dispunha de um Poder Executivo muito diferente do de Cromwell ou do de Napoleão, buscou seu modelo não nos anais da história do mundo, mas nos anais da Sociedade de 10 de Dezembro, nos anais dos tribunais criminais. Rouba 25 milhões de francos ao Banco de França, compra o general Magna com 1 milhão, os soldados por 15 francos cada um e um pouco de aguardente, reúne-se secretamente com seus cúmplices, como um ladrão, na calada da noite, ordena que sejam assaltadas as residências dos dirigentes parlamentares mais perigosos e que Cavaignac, Lamoricière, Leflô, Changarnier, Charras, Thiers, Baze etc. sejam arrancados de seus leitos, que as principais praças de Paris e o edifício do Parlamento sejam ocupados pelas tropas e que cartazes escandalosos sejam colocados ao romper do dia nos muros de Paris proclamando a dissolução da Assembléia Nacional e do Conselho de Estado, a restauração do sufrágio universal e colocando o Departamento do Sena sob estado sítio. Da mesma maneira manda inserir pouco depois no Moniteur um documento falso afirmando que parlamentares influentes se haviam agrupado em torno dele em um Conselho de Estado.
Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tornar-se completamente autônomo. A máquina do Estado consolidou a tal ponto a sua posição em face da sociedade civil que lhe basta ter à frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, um aventureiro surgido de fora, glorificado por uma soldadesca embriagada, comprada com aguardente e salsichas e que deve ser constantemente recheada de salsichas. Daí o pusilânime desalento, o sentimento de terrível humilhação e degradação que oprime a França e lhe corta a respiração. A França se sente desonrada.
Se há efetivamente algo que vale a pena nesse filme é a busca obstimada em debater a questão da responsabilidade, que é tratada segundo muitos e diferentes recortes. Há obviamente, em primeiro lugar, a responsabilidade de Briony Tallis, a jovem que dá causa a uma situação que se demonstra absolutamente irreversível, e que irá comprometer não apenas sua vida, mas também a de sua irmã, Cecilia Tallis, assim como de seu amado, Robbie Turner.
Trata-se de um longo infortúnio, que vai tragando a todos e os dilacerando, como se a mentira houvesse se transformado em uma verdadeira maquina de sucção. O poder dessa máquina, contudo, não é aleatório. Entre as duas irmãs há uma disputa que mobiliza as mais poderosas forças libidinais, em torno do objeto do desejo. Mas as desgraças, especialmente aquelas de família, não têm sempre esse fundo comum? Não se trata sempre desse mesmo poder, ainda que mudem todos os personagens, assim como suas posições na vida familiar. O quanto não se destrói por amor do pai e da mãe, por ciúme do irmão?
Os afetos que não foram em algum grau civilizados e sublimados são potências verdadeiramente cósmicas e seu poder, construtivo e destrutivo, não tem limites precisos. A determinação com que Briony Tallis mente para todos, mas igualmente para si mesma, é aquela do indivíduo que deseja um determinado objeto acima de toda a razoabilidade e sanidade, e que está dispoto a destruí-lo, se não puder conservá-lo para si. Que Briony tenha apenas 13 anos não demonstra que uma tal atitude pertence a alguém imaturo, mas que o inconsciente é arcaico em qualquer idade. Participa, portanto, do jogo afetivo com toda sua exuberância e poder, que é a de um velho – “do homem velho, senhor dos animais”.
A responsabilidade pelo infortúnio não pertence apenas a Briony, contudo. Na verdade existe uma correspondência perfeita entre a sua ação e as preconcepções correntes, que instituem as imagens clichê dos membros de cada estamento, no interior de uma sociedade francamente aristocrática. Robbie Turner é condenado não apenas, e nem mesmo principalmente, pela mentira de Briony, mas pelo fato de que todo o ambiente estava predisposto a reconhecer nele, e apenas nele, culpa. Aquele ato vergonoso, o estupro, só poderia ser obra de um membro da “ralé”, pois ele é aprioristicamente incompatível com a estirpe aristocrática. A culpa e a responsabilidade, portanto, não seguem a situação fática, mas, independentemente dela, condenam e salvam segundo um padrão prévio, que é exatamente aquele que distingue, no interior da sociedade, os de cima e os de baixo; os merecedores de crédito e respeito, e aqueles que já nascem desprovido de um e de outro.
Briony, portanto, é o centro ativo de uma responsabilidade que, na verdade, é de todos os bons membros de sua confraria: mãe, irmão, parentes, e assim por diante. Estes, contudo, sequer parecem ter qualquer dificuldade com a situação. Os termos e regras da sociedade em que vivem já penetrou tão fundo neles, que não podem mais julgar segundo os fatos. Seu juizo se forma segundo o aparente, em que não vêem o mundo, mas as regras sociais, as etiquetas e protocolos, que estipularam para ele. Vêem sempre a si mesmos, e somente isso.
Como se deve pensar, ainda no contexto da responsabilidede, o resgate final do par amoroso? Como se deve entender a kindness com que Briony, tornada escritora, confere a sua irmã rival e seu amado perdido uma vida fictícia, já que ambos morreram sem poderem efetivamente se reunir? Não se trata aqui de pensar o próprio filme e sua audiência? A solução bizarra não redime Briony, e ela bem sabe disso. Realiza-se, contudo, o desejo da platéia, que quer acreditar na ilusão proposta pelo cinema. A meta final, contudo, não é salvar o casal, mas, por intermédio de sua salvação fictícia, preservar intocado o mundo que recorrentemente destrói os Robbie Turner. A ilusão do cinema e a vida corrente não se opõem, mas se completam, formando um todo que petrifica o existente em torno dos valores da ordem.
Last, but not least. Esse filme tem uma passagem antológica: um plano seqüência retratando os soldados britânicos, aglutinados para a retirada do território francês, e acossados pelo exército alemão. Há algo de dantesco naquelas imanges, em que o palco da guerra emerge segundo sua natureza essencial: insanidade e destruição. Também nesse plano, o da guerra, trata-se de responsabilidade e mentira. Em Atonement as devastações privadas e públicas se correspondem. Reside nesse elemento grande parte do brihantismo do filme.